Nessa mesma semana de outubro, o Brasil apresentou duas notícias que provavelmente não se encaixam no mesmo discurso. Em 2 de outubro, a Petrobras revelou a segunda descoberta de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, a 175 quilômetros da costa do Amapá. Cinco dias depois, a ANP promoveu o leilão de áreas mais extenso de sua trajetória: 49 blocos concedidos, resultando em aproximadamente R$ 3 bilhões em bônus, e sete blocos do pré-sal arrematados, batendo o recorde para esse formato de leilão. Em novembro, esse país chega a Antalya como o autor do roteiro mundial para afastar o planeta dos combustíveis fósseis.
O roteiro tem suas origens diretamente ligadas a Belém. Sem um consenso para incluir os fósseis no texto final da COP30, a presidência brasileira, sob a batuta de André Corrêa do Lago, optou por formatá-lo como uma iniciativa voluntária. A adesão foi impressionante: 115 países e 247 participantes não estatais fizeram doações. O documento, que será lançado em Belém, pouco antes da conferência na Turquia, foi elaborado para ser flexível. Ele não estabelece objetivos padronizados. Foca nos desafios tangíveis da transição: a dependência do petróleo para a arrecadação fiscal, o financiamento, o desenvolvimento industrial e a proteção de trabalhadores e comunidades.
É nesse ponto que a contradição se torna algo mais do que apenas retórica. O primeiro item da lista fala sobre o Brasil em si. De acordo com estudos da EPE, a bacia da Foz do Amazonas pode conter até 10 bilhões de barris recuperáveis. O governo já apresentou esse argumento: a receita do petróleo seria a fonte de financiamento para a transição, e um país em desenvolvimento não pode se dar ao luxo de desistir disso enquanto os países ricos continuam a explorar o petróleo. Embora o argumento faça sentido do ponto de vista econômico, ele também pode servir como uma desculpa para qualquer produtor que deseje adiar sua própria saída. Em Antalya, a equipe brasileira vai escutar essa objeção tanto de quem apoia o roteiro quanto de quem tenta miná-lo.
Liderança climática sempre esteve longe de ser uma questão de pureza. Noruega e Reino Unido também mesclaram um discurso de transição com a extração de petróleo e gás. A autoridade de um país decorre da congruência entre suas propostas para os outros e suas ações internas. Para o Brasil, isso implica fornecer respostas claras a perguntas diretas. Quando os novos campos atingem seu auge e quando iniciam sua queda? Quanto da arrecadação da Margem Equatorial é, de fato, destinada à transição, e como isso acontece? As diretrizes nacionais para a retirada dos combustíveis fósseis, que Lula mandou elaborar em dezembro passado, vão ser implementadas antes de novembro?
Existe também uma perspectiva econômica que frequentemente é negligenciada nas discussões diplomáticas. A dependência fiscal do petróleo só é reduzida quando outra economia se desenvolve o bastante para tomar seu lugar. Na Ecossis, temos acompanhado esse processo há duas décadas, sempre em defesa dos ativos ambientais, e estamos cientes de quão insignificante ele ainda é em comparação com a magnitude de um leilão de pré-sal. Mercado de carbono regulado, bioeconomia, restauração e certificação: essas são áreas que já criam valor, mas ainda não atingiram a escala necessária para influenciar uma decisão orçamentária. O roteiro apresenta essa mudança como um desafio financeiro. Em primeiro lugar, trata-se de um desafio relacionado à política industrial.
O Brasil chega a Antalya com mais cartas na manga do que em outras edições. Confirmou presença, Lula. O Acelerador Global de Implementação, desenvolvido em conjunto com a própria Turquia, demonstra uma notável habilidade de mobilização. O roteiro dos fósseis conseguiu mais apoio do que se previa. Mas a confiança nesse papel de liderança depende de algo que nenhum documento consegue resolver por si só: demonstrar ao mundo como a nação que descobre novo petróleo planeja se desvincular dessa dependência.
Chega ao fim em Antalya a presidência brasileira. É importante notar se o roteiro chega à Turquia com datas e critérios específicos, ou se é apenas uma declaração de intenções.