Amazônia 1 ano após a COP
Em novembro de 2025, o mundo olhou para Belém. Pela primeira vez, uma Conferência do Clima da ONU aconteceu às margens da floresta que mais influencia o clima do planeta, e sob a promessa brasileira de que seria a “COP da implementação”. Passado quase um ano, já é possível separar o que ficou de concreto do que ainda é promessa.
O saldo formal é relevante: 56 decisões aprovadas por consenso, reunidas no chamado Pacote de Belém, cuja peça central é a Decisão Mutirão — o termo escolhido pela presidência brasileira para traduzir a ideia de mobilização coletiva. Entre os avanços, destacam-se o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035, dentro de uma meta maior de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano para o clima; a criação de um mecanismo internacional de transição justa; um novo Plano de Ação de Gênero; e o reconhecimento inédito, em textos oficiais, dos direitos territoriais dos povos indígenas e do papel dos afrodescendentes na agenda climática. Para responder à insuficiência das metas nacionais (apenas 122 dos 195 países haviam entregue suas novas NDCs), foram criados a Missão Belém 1,5°C e o Acelerador Global de Implementação, que devem prestar contas na COP31, em novembro de 2026.
O legado mais tangível, porém, nasceu fora do plenário: o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), mecanismo idealizado pelo Brasil para remunerar países que mantêm suas florestas em pé. Lançado com US$ 6,7 bilhões anunciados — de uma meta de US$ 25 bilhões em capital patrocinador, que alavancaria até US$ 100 bilhões em títulos —, o fundo já avançou em 2026: ganhou conselho interino copresidido por Brasil e Noruega, teve sua carta constitutiva adotada em julho e caminha para os primeiros pagamentos a países florestais.
A floresta, aliás, deu sua resposta. A taxa consolidada do Prodes aponta 5.731 km² desmatados na Amazônia entre agosto de 2024 e julho de 2025, uma queda de 12% e a terceira menor marca da série histórica iniciada em 1988. Os alertas do Deter, no ciclo seguinte, recuaram 36%, ao menor nível desde 2016. É resultado direto da retomada da fiscalização, da demarcação de terras indígenas e da recomposição da agenda ambiental federal.
Mas os desafios são da mesma dimensão dos avanços. O mapa do caminho para abandonar os combustíveis fósseis foi barrado por países produtores de petróleo e ficou de fora do texto final, assim como o roteiro global contra o desmatamento; ambos seguem como iniciativa política voluntária da presidência da COP. No campo, a degradação florestal provocada pelo fogo e pela seca extrema segue como ferida aberta, e o Cerrado já registra área sob alerta maior que a da Amazônia. Há ainda contradições internas difíceis de ignorar, como a licença para exploração de petróleo na Foz do Amazonas e o aumento do desmatamento no Mato Grosso, único estado em alta no último Prodes.
Um ano depois, Belém pode ser lembrada como o momento em que a agenda climática saiu do papel ou como mais uma promessa que a floresta não pode esperar. A resposta está sendo escrita agora, e não apenas por governos: empresas, investidores e comunidades que transformaram a COP em mutirão são parte decisiva do próximo capítulo.
A Ecossis continua monitorando os avanços da pauta ambiental nacional e mundial, criando pontes com entidades dos setores público e privado com o objetivo de construir melhores e maiores soluções para acelerar a adoção da agenda climática.