Categoria: Ecotalks

Ação Climática Real: Transparência como infraestrutura do futuro

Elevando a Transparência Climática: Um Caminho para a Credibilidade, ação e Impacto Real 

Em um contexto de urgência climática crescente, marcado pelas COPs e pelos compromissos globais com as mudanças e seus impactos, a transparência emerge como pedra angular para a credibilidade das ações climáticas. Sem visibilidade adequada — sobre emissões, uso de solo, mecanismos de mitigação, adaptação ou financiamento —, metas ambiciosas correm o risco de permanecer no papel ou de serem associadas a práticas de greenwashing. É neste cenário que tecnologias 4.0, em especial a blockchain, podem desempenhar papel decisivo, fornecendo infraestrutura confiável para monitorar, registrar, verificar e tornar públicos os dados ambientais. 

Desafios atuais e Iniciativas Promissoras 

Plataformas como Regen Registry são exemplos de aplicação concreta de tokenização de créditos de carbono via blockchain, buscando aumentar segurança e controle na comercialização e neutralização de pegadas de carbono. (https://www.regen.network/) 

Também há iniciativas como o Registro Nacional de Créditos de Carbono, desenvolvido com apoio do PNUD, que prevê uso de tecnologia para assegurar que cada crédito seja contabilizado de modo transparente, evitando dupla contagem e promovendo conformidade com padrões regulatórios nacionais e internacionais. (Inter-American Development Bank) 

Um outro exemplo de rastreabilidade ambiental apoiada por blockchain é o projeto da Green Bonds Brasil no Cerrado, que cria cadeia de custódia para créditos ambientais (stock de solo / vegetação nativa), combinando certificações, auditoria e tecnologias digitais para garantir a origem e a confiabilidade do ativo ambiental. (Land Innovation Fund) 

Desafios, contudo, permanecem: garantir qualidade dos dados de entrada (sensores, relatórios locais), interoperabilidade entre registros diferentes, requisitos regulatórios claros, eficiência de custos, envolvimento das comunidades locais, e credibilidade institucional. 

 

Estratégias de Ação 

  • Action Agenda da COP30 tem prioridade para tecnologia digital, inovação e infraestruturas que permitam execução de compromissos climáticos, além de iniciativas como o Plano de Transformação Ecológica do Brasil. (COP30 Brasil) 
  • O Brasil já propôs durante COP30 a criação de uma Coalizão Aberta para integração de mercados de carbono (“Open Coalition for Carbon Market Integration”), que visa harmonizar padrões e aumentar liquidez e transparência no setor de créditos de carbono. (COP30 Brasil) 
  • Ferramentas de transparência como o painel de monitoramento do Plano de Transformação Ecológica (“New Brazil”) já estão em operação, mostrando como monitoramento público pode ser parte de infraestrutura institucional. (Serviços e Informações do Brasil) 

 

Assim, podemos dizer que as tecnologias e, especialmente, a blockchain não é mágica nem garante impacto por si só, mas quando integrada a boas práticas de MRV, padrões reconhecidos, participação local e regulação clara, ela se torna infraestrutura indispensável de transparência climática. Para a Ecossis, esse é um campo estratégico para deixar um legado concreto — não apenas de compromissos, mas de instrumentos tecnológicos e institucionais que sustentem a ação climática real, verificável e justa. 

 

 

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COP30 e Transição Digital Verde Conectando tecnologia, sustentabilidade e sociedade

EcoTalks propõe atividade “COP30 e Transição Digital Verde” no Brasil Participativo

A Ecossis, por meio do projeto EcoTalks, apresentou ao programa Brasil Participativo a proposta “COP30 e Transição Digital Verde: Conectando Tecnologia, Sustentabilidade e Sociedade”, que integra o conjunto de atividades preparatórias para a Conferência do Clima (COP30), a ser realizada em novembro de 2025, em Belém (PA).

A iniciativa propõe um ciclo editorial e de divulgação científica voltado à discussão dos eixos centrais da COP30 — justiça climática, economia verde e governança tecnológica —, destacando o papel das tecnologias emergentes na construção de uma transição digital verde e inclusiva.

O programa contempla publicações temáticas, podcasts/videocasts e artigos analíticos, conectando ciência, política e sociedade em torno da inovação e da sustentabilidade. O objetivo é disseminar conhecimento técnico e promover reflexões sobre como ferramentas como blockchain, Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial podem contribuir para a transparência climática, o monitoramento ambiental e o fortalecimento de políticas públicas baseadas em evidências.

A proposta está disponível para votação no Brasil Participativo, plataforma do Governo Federal que reúne ideias da sociedade civil para a construção de políticas públicas.

Confira a proposta: COP30 e Transição Digital Verde: Conectando Tecnologia, Sustentabilidade, Transparência e Sociedade (https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/cop30/f/1302/proposals/71038)

 

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Ecotalks participa de videocast especial

O EcoTalks participou de um videocast online que reuniu especialistas para discutir temas fundamentais para a gestão ambiental moderna: metrologia, confiabilidade de dados, rastreabilidade e o papel das tecnologias digitais no monitoramento ambiental. A conversa contou com a participação de Wilson (Inmetro), Gustavo Leite (diretor executivo da Ecossis) e Bernardo Alcalde  (Gerente Financeiro e Líder de P&D envolvido no Projeto Oikos Blockchain.)

Abrindo o videocast, Wilson contextualizou a conexão entre metrologia e sustentabilidade, citando a conhecida máxima atribuída a Lord Kelvin: “só conhecemos aquilo que conseguimos medir”. Ele explicou que variáveis ambientais — como emissões de carbono, absorção de CO₂ por florestas, qualidade da água e dados de biodiversidade — dependem de medições confiáveis. Para ele, a incerteza de medição é um dos maiores desafios atuais, já que decisões públicas e privadas passam a depender diretamente da precisão desses dados.

Wilson destacou ainda que, na era digital, medir não basta: é preciso garantir que os dados permaneçam íntegros, auditáveis e rastreáveis, evitando manipulações ou perdas. Segundo ele, mercados como o de créditos de carbono e certificações ambientais só se tornarão robustos com registros confiáveis e verificáveis ao longo do tempo.

Em seguida, Bernardo trouxe a perspectiva prática de quem lida com a digitalização dos dados ambientais. Ele comentou que muitas equipes técnicas e órgãos ambientais ainda utilizam procedimentos manuais — como pranchetas e anotações físicas —, o que dificulta a padronização e a automação. O desenvolvedor explicou como o Projeto Oikos Blockchain busca solucionar parte desses desafios estruturando coletas, garantindo rastreabilidade e reduzindo interferências humanas.

Gustavo completou a discussão destacando que a demanda por confiabilidade, auditoria e validação de dados ambientais cresceu de forma acelerada devido à pressão regulatória e ao uso de indicadores em disputas técnicas, certificações e projetos de financiamento climático. Ele ressaltou que o setor ambiental agora precisa lidar não apenas com desafios técnicos, mas também com fatores institucionais, culturais e políticos que influenciam a adoção de novas tecnologias.

O videocast também abordou como tecnologias emergentes — especialmente Blockchain — podem ajudar a resolver gargalos de rastreabilidade e imutabilidade dos dados. Os participantes concordam que a combinação entre metrologia, digitalização, padronização e tecnologia é indispensável para construir sistemas ambientais mais confiáveis e resilientes.

 

Assista ao videocast aqui: https://www.youtube.com/watch?v=i2y54nqC3pE

 

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Tecnologia, territórios e a promessa da COP30

Belém tornou-se no epicentro das discussões climáticas globais junto à COP30 e, com ela, cresce a sensação de que chegamos a um ponto de saturação das conferências internacionais: já ouvimos promessas demais, anúncios demais, compromissos demais. A sensação de déjà-vu se repete todos os anos, com metas ambiciosas apresentadas pela manhã, disputas diplomáticas à tarde, frustrações discretas à noite. No entanto, há algo diferente no ar desta vez. A COP30 carrega consigo um elemento que pode alterar a própria arquitetura da governança climática: o avanço acelerado das tecnologias digitais, hoje consideradas indispensáveis para transformar ambições em verificações e intenções em resultados. 

O fato de a conferência ocorrer no coração da Amazônia não é apenas gestual. É a primeira vez que o maior bioma tropical do mundo, frequentemente tratado como símbolo, torna-se o palco concreto de um encontro desse porte. Mas a escolha do território vem acompanhada de controvérsias: a infraestrutura limitada de Belém, a explosão nos preços de hospedagem, a construção da chamada “Avenida Liberdade”, que corta áreas de vegetação e expõe contradições entre discurso e prática. Para críticos, a COP30 pode ser apenas uma vitrine. Para propositores, foi a chance de transformar o Brasil em laboratório vivo da transição ecológica. 

No centro desse debate está uma questão que perpassa governos, empresas, ONGs e comunidades: como garantir que os compromissos ambientais sejam, de fato, monitoráveis, auditáveis e verificáveis? Essa não é uma preocupação secundária. Sem mecanismos sólidos de transparência e rastreabilidade, o mercado de créditos de carbono perde credibilidade; programas de pagamento por serviços ambientais se tornam suscetíveis a fraudes; e relatórios de emissões permanecem vulneráveis a manipulações políticas. Como mostram estudos recentes e iniciativas já em curso no Brasil — do painel do Plano de Transformação Ecológica ao Registro Nacional de Créditos de Carbono — a confiança institucional se tornou tão importante quanto os fluxos financeiros. 

É nesse contexto que reaparece a força de uma ideia defendida há anos pelo pesquisador e empreendedor Don Tapscott: a “trivergência” entre inteligência artificial, blockchain e Internet das Coisas. Segundo Tapscott, essas três tecnologias, quando combinadas, não geram apenas inovação incremental, mas um novo sistema operacional para a sociedade. Isoladas, já são poderosas. Interconectadas, podem reconfigurar por completo a forma como medimos, executamos e fiscalizamos ações coletivas — incluindo aquelas ligadas à crise climática. 

A trivergência funciona, em essência, como um circuito de integridade. A IoT (Internet das Coisas) coleta dados ambientais no campo (sensoriamento de solo, umidade, qualidade da água, alertas de incêndio, medições de desmatamento). A inteligência artificial processa esses dados, detecta padrões, identifica anomalias, antecipa riscos e produz modelos preditivos sobre mudanças no uso da terra, vulnerabilidade climática ou perda de biodiversidade. E a blockchain garante que o registro desses dados seja resistente à adulteração, formando trilhas de auditoria confiáveis para mercados de carbono, investidores, governos e comunidades. Não é exagero afirmar que essa combinação é um divisor de águas para o monitoramento, relato e verificação (MRV) ambiental, o calcanhar de Aquiles das COPs anteriores. 

O Brasil encontra-se em posição privilegiada para liderar essa agenda. Nos últimos anos, surgiram no país projetos que unem certificação ambiental, auditoria independente e blockchain para rastrear créditos de carbono ou estoques de vegetação nativa, como iniciativas no Cerrado que buscam evitar a sempre temida dupla contagem. Outras experiências empregam tokentização e registros distribuídos para garantir transparência em pagamentos por conservação florestal. Na Amazônia, sensores e satélites são cada vez mais utilizados para monitorar mudanças no uso do solo, enquanto redes de pesquisadores e órgãos ambientais começam a integrar inteligência artificial às suas rotinas de análise. 

A COP30, portanto, ocorre em um momento em que a infraestrutura tecnológica começa a se alinhar ao discurso político. O desafio, como sempre, reside na capacidade de fazer com que essa infraestrutura seja utilizada de maneira responsável, inclusiva e territorialmente sensível. Tecnologias, afinal, nunca são neutras. O uso de blockchain ou IA na Amazônia pode fortalecer a governança local e empoderar comunidades, mas também pode, se implementado sem diálogo, reforçar desigualdades, criar dependências ou impor modelos externos de desenvolvimento. 

É importante lembrar que a capacidade técnica de registrar dados de forma imutável não resolve, por si só, o problema da qualidade desses dados. Uma blockchain não corrige estimativas infladas, sensores mal calibrados ou metodologias fracas. Tampouco substitui a necessidade de instituições sólidas, regulações claras e participação social efetiva. O entusiasmo tecnológico não deve obscurecer uma realidade básica: sem vontade política, nenhuma inovação conseguirá impedir o avanço do desmatamento, das queimadas ou das emissões industriais. 

Ainda assim, seria um erro subestimar o potencial transformador da trivergência tecnológica. Pela primeira vez, governos e sociedade dispõem de ferramentas capazes de acompanhar processos ambientais quase em tempo real, com precisão, auditabilidade e ampla capacidade de integração. A promessa de integrar sensores de campo a redes blockchain, garantindo pagamentos automáticos e transparentes a agricultores familiares e povos tradicionais, pode mudar radicalmente o equilíbrio econômico entre destruir e conservar. A possibilidade de que mercados de carbono tornem-se confiáveis, interoperáveis e rastreáveis (algo discutido na própria proposta brasileira de integração aberta desses mercados), pode desbloquear investimentos bilionários em adaptação e mitigação. A articulação entre satélites, IA e registros distribuídos abre caminho para sistemas de governança ambiental que não dependem exclusivamente de interpretações políticas. 

O que se espera da COP30 é justamente a disposição de transformar esse potencial em estratégia nacional e internacional. Belém tem a chance de mostrar não apenas discursos, mas demonstrações práticas: protótipos funcionando, bases de dados abertas, acordos vinculados a métricas verificáveis, consórcios entre universidades, startups, governos e comunidades. A Amazônia, além de um símbolo, pode se tornar o cenário em que modelos de governança digital e ambiental são testados em escala real. 

Mas para que isso aconteça, é preciso resgatar uma pergunta que costuma ficar à margem nos debates tecnológicos: a tecnologia a serviço de quem? De que tipo de desenvolvimento? Com qual modelo de governança e justiça? Se a COP30 pretende deixar um legado duradouro, será necessário garantir que a digitalização da governança ambiental não reproduza a mesma lógica histórica de extração: dados e ativos fluindo para fora da região, enquanto o desenvolvimento territorial continua estagnado. A tecnologia só cumprirá seu papel se reforçar a autonomia dos povos da floresta, ampliar sua capacidade de decisão e garantir que sejam protagonistas da transição ecológica. 

Ao final, talvez o maior mérito da COP30 seja a possibilidade de inaugurar uma nova fase: a fase em que a transparência não é mais opcional; em que metas ambientais não podem ser diluídas em relatórios sem lastro; em que dados substituem narrativas; em que a sociedade pode acompanhar, quase de forma síncrona, o que governos fazem (ou deixam de fazer). Uma fase em que a convergência tecnológica (entre si e entre a tecnologia e a natureza) deixa de ser teoria e se torna prática cotidiana. 

Resta saber se o mundo e o Brasil, em particular, estão dispostos a realizar esse salto. Porque desta vez, diferentemente das COPs anteriores, a distância entre discurso e ação talvez esteja mais ligada à coragem política do que à capacidade técnica. E é isso que fará da COP30 um marco transformador — ou mais um capítulo de promessas adiadas. 

 

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Do Sensor à Blockchain: Como funciona a transparência ambiental na prática

Quando falamos em tecnologia para o clima, é fácil cairmos na abstração. Blockchain, sensores, contratos inteligentes, são termos que aparecem em conferências e documentos, mas que raramente são explicados de forma concreta. Como, afinal, essas peças se conectam? E por que isso importa para a credibilidade das ações climáticas? 

Vamos percorrer o caminho completo de um dado ambiental, desde sua origem no campo até seu registro permanente. 

O ponto de partida: sensores no território 

Tudo começa com a coleta. Sensores instalados em áreas de floresta, propriedades rurais ou zonas urbanas medem variáveis como temperatura, umidade do solo, qualidade do ar, níveis de água ou presença de focos de calor. Esses dispositivos funcionam de forma autônoma, transmitindo leituras em intervalos regulares para sistemas centrais ou diretamente para redes distribuídas. 

A coleta automatizada elimina a dependência exclusiva de relatórios manuais, que podem ser imprecisos, atrasados ou manipulados. Um sensor calibrado e em funcionamento contínuo oferece uma linha do tempo verificável do que aconteceu em determinado ponto geográfico. 

O elo crítico: garantindo a origem do dado 

Aqui surge o desafio mais sensível de toda a cadeia. De nada adianta registrar informações em uma blockchain se os dados de entrada forem duvidosos. Um número inventado, registrado de forma imutável, continua sendo um número inventado. 

Por isso, dispositivos com arquitetura de chaves público-privadas são fundamentais. Cada sensor possui uma identidade criptográfica única: uma chave privada que assina digitalmente cada leitura, e uma chave pública que permite verificar essa assinatura. Isso significa que, ao receber um dado, o sistema pode confirmar que ele veio daquele sensor específico, naquele momento, sem ter sido alterado no caminho. 

Para aplicações críticas, esses dispositivos precisam ser metrologicamente certificados, ou seja, calibrados e testados segundo padrões reconhecidos de medição. A combinação de identidade criptográfica com certificação metrológica cria uma blindagem dupla: o dado é autêntico (veio da fonte certa) e preciso (a fonte mede corretamente). 

Uma vez inscrito, o dado não pode ser apagado ou modificado sem deixar rastro. Esse registro permanente serve como prova pública: qualquer pessoa, a qualquer momento, pode auditar o histórico de medições. Governos, investidores, certificadores e comunidades locais passam a operar sobre a mesma base de informação, reduzindo disputas e aumentando a confiança mútua. 

Casos de uso concretos 

Na prática, esse fluxo já sustenta aplicações reais como em cadeias de suprimento. A mesma lógica rastreia a origem de commodities, diferenciando produtos de áreas desmatadas daqueles provenientes de manejo sustentável. Para mercados cada vez mais exigentes em rastreabilidade, essa infraestrutura deixa de ser diferencial e se torna requisito. 

No final, não se trata de substituir instituições ou dispensar regulação. Trata-se de dar a elas ferramentas para funcionar melhor. Quando o dado fala por si, sobra menos espaço para narrativas sem lastro e mais espaço para ação mensurável. 

E é justamente por isso que temas como certificação metrológica, confiabilidade de medições e tecnologias de rastreabilidade ganharam destaque no Metrologia 2025 — onde a Ecossis esteve presente apresentando soluções que conectam sensores, validação metrológica e blockchain para fortalecer a transparência ambiental. 

 

 

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A infraestrutura blockchain que o Brasil está construindo

No artigo anterior, percorremos o caminho de um dado ambiental, desde o sensor no campo até seu registro permanente em blockchain. Mas uma pergunta permanece: onde esses dados seriam registrados? Em qual rede? Mantida por quem? 

A resposta importa. Pouco adianta uma tecnologia robusta se ela depende de infraestruturas privadas, instáveis ou controladas por interesses opacos. Para aplicações de interesse público, a rede precisa ser tão confiável quanto os dados que carrega. E é aqui que o Brasil apresenta algo pouco conhecido, mas significativo: já existe uma infraestrutura pública de blockchain em operação, construída por instituições do próprio Estado. 

A Rede Blockchain Brasil 

A RBB (Rede Blockchain Brasil) foi criada em 2022 por meio de um Acordo de Cooperação entre o BNDES e o Tribunal de Contas da União. Trata-se de uma rede público-permissionada: pública porque qualquer cidadão pode consultar os dados registrados; permissionada porque os nós que validam transações são operados por instituições previamente autorizadas, com responsabilidades definidas. 

Esse modelo resolve um dilema comum: redes totalmente abertas oferecem transparência, mas apresentam barreiras regulatórias e operacionais para o setor público. Redes privadas são mais simples de operar, mas limitam o acesso e a auditabilidade. A RBB busca o melhor dos dois mundos: transparência de rede pública com a governança e a previsibilidade de uma rede permissionada. 

A rede utiliza Hyperledger Besu, uma implementação de código aberto baseada em Ethereum, e já conta com a participação de diversas instituições públicas. Sua arquitetura permite que órgãos governamentais, universidades e organizações de interesse público compartilhem uma infraestrutura comum, reduzindo custos e removendo barreiras de entrada para quem deseja inovar com blockchain no setor público. 

Pesquisa e experimentação: o Projeto Ilíada 

Se a RBB é a rede em operação, o Projeto Ilíada é o laboratório. Coordenado pela Softex e executado pela RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) em parceria com o CPQD, o Ilíada integra os Programas Prioritários de Informática do governo federal. Seu objetivo é amadurecer a tecnologia blockchain no contexto brasileiro, criando um observatório e um ambiente de testes para estudar, experimentar e validar aplicações antes que cheguem à produção. 

O Ilíada funciona como uma ponte entre a pesquisa acadêmica e a implementação real. Permite que desenvolvedores, pesquisadores e gestores públicos testem soluções em ambiente controlado, identifiquem problemas e refinem abordagens sem comprometer sistemas em operação. É o tipo de infraestrutura que diferencia países quando falamos sobre inovação. 

Um ecossistema em formação 

O que emerge desse cenário é um ecossistema. De um lado, uma rede pública operacional com governança institucional. De outro, um ambiente de pesquisa e desenvolvimento com recursos e expertise técnica. No meio, aplicações concretas que começam a ocupar essa infraestrutura: rastreabilidade de recursos, certificação de documentos, transparência em processos públicos e, por que não, monitoramento ambiental. 

Para iniciativas como a nossa, que trabalham com certificação ambiental e dados climáticos verificáveis, essa infraestrutura não é detalhe técnico. É fundação. Saber que existe uma rede pública brasileira, mantida por instituições auditáveis, operando sobre tecnologia aberta, muda o horizonte do que é possível construir. 

Quer saber mais? 

No próximo episódio do nosso podcast, conversaremos com os responsáveis por essas iniciativas, saber melhor sobre quais desafios enfrentam e o que esperam para os próximos anos. Se você quer entender como o Brasil está se posicionando na infraestrutura digital do futuro, não perca. 

 

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2026 vem aí: tendências blockchain e governança ambiental

O ano de 2025 terminou com a COP30 em Belém, colocando a Amazônia no centro do debate climático global. 2026 começa com uma pergunta: o que vem depois das promessas? A resposta passa, em boa medida, pela capacidade de transformar compromissos em sistemas verificáveis. E é aí que acreditamos que a tecnologia entra em cena. 

Regulação do mercado de carbono ganha tração 

O Brasil avançou na estruturação do seu mercado regulado de carbono, e 2026 deve ser o ano em que as regras começam a se traduzir em infraestrutura operacional. Isso significa registros digitais, sistemas de rastreabilidade e mecanismos para evitar a dupla contagem. Blockchain desponta como peça central dessa arquitetura, oferecendo trilhas de auditoria transparentes e resistentes a manipulação. 

Redes públicas ganham escala 

Iniciativas como a Rede Blockchain Brasil (RBB) e o Projeto Ilíada amadureceram nos últimos anos e, em 2026, a expectativa é que mais instituições públicas passem a utilizar essa infraestrutura compartilhada para aplicações que vão além do setor financeiro: certificação de documentos, rastreabilidade de cadeias produtivas e governança ambiental. A lógica é simples: se o dado precisa ser público e auditável, faz sentido usar uma rede pública e auditável. 

IoT e IA se integram à cadeia de confiança 

Sensores no campo, satélites em órbita, algoritmos processando imagens. Tudo isso já existe! O que 2026 promete é uma integração mais robusta entre essas camadas. Dados coletados por dispositivos certificados, validados por inteligência artificial e registrados em blockchain formam o que especialistas chamam de “trivergência”. O resultado é um sistema de monitoramento, relato e verificação (MRV) que não depende apenas de declarações, mas de evidências. 

Tokenização de ativos ambientais amadurece 

Créditos de carbono tokenizados deixam de ser experimento e começam a operar em escala. Isso serve para outros ativos: estoques de vegetação nativa, serviços ecossistêmicos, biodiversidade certificada. A tokenização permite fracionamento, liquidez e rastreabilidade. Mas também exige padrões claros e governança sólida para não virar mais uma promessa vazia. 

COP31 na Turquia: pressão por implementação 

Em novembro, os olhos do mundo se voltam para Antalya. A COP31 acontece sob a presidência de negociações da Austrália, com foco especial no Pacífico e nos países mais vulneráveis. Será que o Brasil chega com o dever de casa feito? A expectativa é que a conferência cobre resultados concretos, não apenas novas metas. Tecnologia de verificação será, mais uma vez, tema central. 

O que isso significa na prática 

Para quem trabalha na interseção entre tecnologia e meio ambiente, 2026 é um ano de consolidação. As peças estão posicionadas: redes públicas operacionais, regulação em movimento, ferramentas de monitoramento cada vez mais sofisticadas. O desafio agora é fazer tudo funcionar de maneira sincronizada, de forma que os dados falem por si e os compromissos possam ser cobrados com base em evidências. 

O ano promete menos anúncios e mais implementação. E isso, no fundo, é o que sempre se esperou. 

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Glossário climático-tech: 10 termos essenciais para acompanhar o debate

Conferências climáticas, relatórios técnicos e notícias sobre sustentabilidade estão repletos de siglas e conceitos que nem sempre são explicados. Para quem quer acompanhar o debate sem se perder no jargão, reunimos dez termos que aparecem com frequência quando tecnologia e clima se encontram.

  1. MRV (Monitoramento, Relato e Verificação):
    O tripé que sustenta qualquer compromisso ambiental sério. Monitorar significa coletar dados sobre emissões, uso do solo ou conservação. Relatar é transformar esses dados em informações acessíveis. Verificar é garantir que o que foi relatado corresponde à realidade. Sem MRV robusto, metas climáticas viram declarações de intenção.
  2. NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada):
    São os compromissos climáticos que cada país apresenta no âmbito do Acordo de Paris. Cada nação define suas próprias metas de redução de emissões e adaptação, revisando-as periodicamente. A credibilidade das NDCs depende diretamente da capacidade de monitorar e verificar seu cumprimento.
  3. Blockchain:
    Uma tecnologia de registro distribuído onde informações são armazenadas em blocos encadeados, validados por múltiplos participantes. Uma vez registrado, o dado não pode ser alterado sem deixar rastro. No contexto ambiental, serve para criar trilhas de auditoria confiáveis para créditos de carbono, certificações e cadeias de custódia.
  4. Tokenização:
    O processo de representar um ativo real como um token digital em blockchain. Um crédito de carbono tokenizado, por exemplo, pode ser fracionado, transferido e rastreado com facilidade. A tokenização promete dar liquidez e transparência a mercados ambientais, mas exige padrões claros para funcionar.
  5. IoT (Internet das Coisas):
    Rede de dispositivos físicos como sensores, medidores, câmeras, conectados à internet e capazes de coletar e transmitir dados automaticamente. No contexto climático, sensores IoT monitoram qualidade do ar, umidade do solo, níveis de água e focos de calor, alimentando sistemas de gestão ambiental em tempo real.
  6. Oráculo:
    No universo blockchain, oráculos são mecanismos que trazem dados do mundo externo para dentro da rede. O “problema do oráculo” é garantir que esses dados sejam confiáveis na origem. De nada adianta um registro imutável se a informação que entra já está errada.
  7. Smart Contract (Contrato Inteligente):
    São programas autoexecutáveis que rodam em blockchain. Quando condições predefinidas são atendidas, o contrato executa ações automaticamente, como liberar um pagamento. Em programas ambientais, smart contracts podem automatizar a remuneração por serviços ecossistêmicos assim que sensores confirmam a preservação de uma área.
  8. Greenwashing:
    A prática de transmitir uma imagem ambientalmente responsável sem lastro real. Empresas ou países podem inflar resultados, usar metodologias frágeis ou simplesmente mentir. Tecnologias de verificação existem justamente para dificultar o greenwashing, tornando alegações auditáveis.
  9. Crédito de Carbono:
    Um certificado que representa a redução ou remoção de uma tonelada de CO₂ equivalente da atmosfera. Pode ser gerado por projetos de reflorestamento, energia renovável ou conservação florestal. Créditos são comprados por empresas ou governos para compensar suas próprias emissões.
  10. Dupla Contagem:
    O erro (ou fraude) de contabilizar a mesma redução de emissões mais de uma vez. Isso pode acontecer quando um crédito de carbono é vendido para uma empresa e, ao mesmo tempo, contabilizado na meta nacional do país onde o projeto está. Sistemas de registro em blockchain ajudam a evitar esse problema ao criar identificadores únicos e rastreáveis.

Por que isso importa?

Esses termos não são apenas jargão técnico. Eles descrevem as engrenagens de um sistema em construção que pretende transformar promessas climáticas em resultados verificáveis. Conhecer o vocabulário é um dos primeiros passos para participar do debate e cobrar consistência de quem assume compromissos.

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Superando desafios de infraestrutura climática e ambiental com tecnologia

Quando se fala em tecnologia para o clima, o foco costuma recair sobre sensores, algoritmos e blockchain. Mas existe uma camada menos visível e igualmente crítica: a infraestrutura física que faz tudo isso funcionar. Data centers, redes de conectividade, fornecimento de energia, capacidade de processamento. Sem essa base, as soluções mais sofisticadas não saem do papel. 

Nesse sentido, podemos começar pelo começo: data centers e como eles são, hoje, o coração da economia digital (e um de seus maiores consumidores de energia). Globalmente, essas instalações respondem por cerca de 1% a 1,5% do consumo elétrico mundial, com tendência de crescimento acelerado à medida que demandas por inteligência artificial e processamento de dados aumentam. Para quem trabalha com tecnologia climática, isso cria um paradoxo: as ferramentas que prometem ajudar o meio ambiente dependem de infraestruturas que pressionam o próprio meio ambiente. 

A resposta não é abandonar a digitalização, mas exigir que ela seja feita de forma responsável. Data centers alimentados por fontes renováveis, sistemas de refrigeração eficientes, localização estratégica em regiões com matriz energética limpa. O Brasil, com sua predominância hidrelétrica e potencial solar e eólico, tem vantagens competitivas que ainda são subaproveitadas. 

Nas pontas, a conectividade se destaca: monitorar a Amazônia, o Cerrado ou o Pantanal exige mais do que satélites. Exige conectividade no solo, com redes que permitam transmitir dados de sensores instalados em áreas remotas. Essa é uma das maiores lacunas da infraestrutura brasileira. Comunidades inteiras permanecem desconectadas, e com elas, os ecossistemas ao redor. 

Iniciativas de conectividade rural e projetos de expansão de fibra óptica e redes móveis começam a preencher essa lacuna, mas o ritmo ainda é lento. Para que o monitoramento ambiental funcione em escala, é preciso tratar conectividade como infraestrutura básica, tão essencial quanto estradas ou energia elétrica. 

Além da conectividade e do armazenamento dos dados, o processamento de grandes volumes de dados ambientais — imagens de satélite, séries históricas de sensores, modelos climáticos — exige capacidade computacional significativa. Hoje, boa parte desse processamento acontece em data centers fora do país, levantando questões sobre soberania de dados e dependência de infraestrutura estrangeira. 

O fortalecimento de centros de processamento nacionais, vinculados a universidades, institutos de pesquisa e redes como a RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa), é parte da resposta. Manter dados ambientais brasileiros em infraestrutura brasileira não é apenas uma questão técnica, mas uma questão estratégica. 

Toda essa infraestrutura consome energia. E a coerência exige que a energia consumida seja, ela própria, parte da solução climática. Data centers movidos a diesel ou carvão minam a credibilidade de qualquer projeto ambiental que rodem. A integração entre infraestrutura digital e matriz energética limpa precisa ser planejada desde o início, não tratada como detalhe posterior. 

Por fim, o debate sobre tecnologia climática muitas vezes ignora que inovação depende de base física. Não basta desenvolver o melhor algoritmo de monitoramento se não há rede para transmitir os dados, nem energia limpa para alimentar os servidores, nem capacidade nacional para processar as informações. Infraestrutura é política pública e precisa ser tratada como prioridade se o Brasil quiser liderar a agenda climática com consistência. 

A tecnologia está pronta. A pergunta é se a infraestrutura que a sustenta estará à altura do desafio. 

 

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